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          Comdias para se Ler na Escola
          Edio Especial para Crianas

          Luis Fernando Verissimo

          Apresentao e Seleo
          Ana Maria Machado
           
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Impresso Braille em volume 
nico na diagramao de 28 
linhas por 34 caracteres, da 
editora Objetiva, 1 edio 
de 2005.
<F+>

          Volume nico

          Ministrio da Educao
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro 
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~, 
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --

<p>
          (C) 2005, Luis Fernando 
          Verissimo

          Reviso:
          Snia Peanha
          Damio Nascimento
          Marilena de Moraes

          Coordenao Editorial:
          Isa Pessa

          ISBN 85-7302-684-7

          Todos os direitos desta edio reservados 
          EDITORA OBJETIVA LTDA., rua Cosme Velho, 103
          Rio de Janeiro -- RJ
          Tel.: (21) 2556-7824 -- 
          Fax: (21) 2556-3322
          ~,www.objetiva.com.br~,

<p>
                              I
Luis Fernando Verissimo  gacho, consagrado como um dos escritores mais populares do pas. Filho do romancista Erico Verissimo, Luis Fernando j recebeu muitos prmios, entre eles o Juca Pato, como Intelectual do Ano, em 1997, e a Medalha de Resistncia Chico Mendes, dada pelo grupo Tortura Nunca Mais, em 1996. Tem livros publicados em 11 pases.

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V517c
  Verissimo, Luis Fernando
     Comdias para se ler na escola -- Edio especial para crianas / Luis Fernando 
  Verissimo ; -- Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

    94 p.
    ISBN 85-7302-684-7

  1. Literatura brasileira -- Crnicas. I. Ttulo
                   CDD B869.#d
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<p>
  Para gostar de ler, eis a sugesto: textos curtos, fceis, divertidos, escritos numa linguagem clara e parecida com a que a gente fala todo dia. Assim so os textos de Luis Fernando Verissimo.
  Com a experincia de quem j publicou 105 livros, para adultos e crianas, Ana Maria Machado examinou a obra de Verissimo sob o ponto de vista do leitor infantil e juvenil. O que ele busca? Por que nem sempre se apaixona por um livro? Do que precisa para, finalmente, incorporar o hbito da leitura ao seu cotidiano?
  Ana encontrou respostas sedutoras no texto de Verissimo. Capaz de falar sobre qualquer assunto e a qualquer pretexto, o escritor revela suas obsesses, mergulha em lembranas solitrias de infncias e adolescncias, preocupa-se com o social e tico -- encontrando sempre uma maneira nova de fazer isso, como se nunca o tivesse feito antes.
                             III
  A originalidade e o humor de Verissimo funcionam, desta forma, como o melhor estmulo para quem no gosta de ler -- ou melhor, para quem ainda no descobriu o prazer, a aventura, que um livro pode proporcionar.
  A apresentao e seleo dos textos deste livro foram feitas pela escritora carioca Ana Maria Machado. Sua obra para crianas e jovens est traduzida em 16 pases. Recebeu todos os principais prmios no Brasil e, em 2000, ganhou o prmio Hans Christian Andersen, do IBBY (International Board on Books for Young People), considerado o Nobel da Literatura Infanto-Juvenil.

               ::::::::::::::::::::::::

  Luis Fernando Verissimo, um dos grandes nomes da literatura brasileira,  autor de livros encantadores para adultos e crianas. Filho do romancista Erico Verissimo, nasceu em Porto Alegre, consagrou-se como um mestre da narrativa curta e de humor refinado. Aos 69 anos, conquistou prmios importantes como o intelectual do Ano, em 1997, pela Unio Brasileira de Escritores, e a Medalha de Resistncia Chico Mendes, dada pelo grupo Tortura Nunca Mais. Seus livros j foram traduzidos para 11 pases. Na foto ao lado, Verissimo com Ana Maria Machado, que selecionou os textos deste livro para voc.

               ::::::::::::::::::::::::

  "Aposto que, em sua maioria, os novos leitores vo se viciar em livro e sair procurando outros textos, de outros autores. Com vontade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? O Verissimo nunca pensou que ia ser escritor quando crescesse. Seu negcio era mesmo um bom solo de  
                                V
saxofone. Mas com essa histria de ser msico, desenvolveu tanto o ouvido que acabou assim: hoje ele ouve (e conta pra ns) at o que pensamos, sentimos e sonhamos em silncio. Em qualquer idade."

Ana Maria Machado 
     
               ::::::::::::::::::::::::
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Mensagem ao leitor

Prezado(a) Leitor(a),

  Este livro  de uso coletivo. Como, alm de voc, muitos leitores tero acesso a ele, certos cuidados ao utiliz-lo so muito importantes:
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<R+>
 manuseie-o com as mos limpas;
 evite comer ou beber enquanto estiver lendo;
 procure mant-lo bem conservado, sem rabiscos, dobras e sem recortes; e 
 ao concluir a leitura, devolva-o para a biblioteca.
  Contamos com sua colaborao.

Boa leitura.
<R->
<F+>
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                             VII
Sumrio

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Bom de Ouvido, por Ana 
  Maria Machado ::::::::::: 1

*Equvocos* 
A Espada :::::::::::::::::: 11
O Maraj :::::::::::::::::: 14
O Homem Trocado :::::::::: 21
A Foto :::::::::::::::::::: 24

*Outros Tempos*
A Bola :::::::::::::::::::: 28
Histria Estranha ::::::::: 30
Vivendo e... ::::::::::::::: 32
Rosquinha :::::::::::::::::: 35

*De Olho na Linguagem*
Sexa ::::::::::::::::::::::: 39
P, P, P ::::::::::::::: 41
Tintim ::::::::::::::::::::: 46
Papos :::::::::::::::::::::: 49
O Jargo :::::::::::::::::: 52
Pudor :::::::::::::::::::::: 54
Palavreado ::::::::::::::::: 59
<p>
*Fbulas*
Bobagem :::::::::::::::::::: 66
Hbito Nacional ::::::::::: 68

*Falando Srio*
Fobias ::::::::::::::::::::: 72
Anedotas ::::::::::::::::::: 77
ABC ::::::::::::::::::::::: 81

*Exerccios de Estilo*
Amor ::::::::::::::::::::::: 87
Um, Dois, Trs ::::::::::: 89
O Ator :::::::::::::::::::: 93
Rpido ::::::::::::::::::::: 97
Notas de Rodap ::::::::::: 103
<F+>

               ::::::::::::::::::::::::

Nota da Transcrio

  As notas de rodap destacadas sero transcritas no final desta obra, com os nmeros das pginas em que elas aparecem em braille.
<7>
<tcomdias ler escola>
<t+1>
Bom de Ouvido Por Ana 
  Maria Machado

  *Volta e meia a gente encontra* algum que foi alfabetizado, mas no sabe ler. Quer dizer, at domina a tcnica de juntar as slabas e  capaz de distinguir no vidro dianteiro o itinerrio de um nibus. Mas passa longe de livro, revista, material impresso em geral. Gente que diz que no curte ler. 
  Esquisito mesmo. Sei l, nesses casos, sempre acho que  como se a pessoa estivesse dizendo que no curte namorar. Talvez nunca tenha tido a chance de descobrir como  gostoso. Nem nunca tenha parado para pensar que, se teve alguma experincia desastrosa em um namoro (ou em uma leitura), isso no quer dizer que todas vo ser assim.  s trocar de namorado ou namorada. Ou de livro. De repente, pode descobrir delcias que nem imaginava, gostosuras fantsticas, prazeres incrveis. Ningum devia ser obrigado a namorar quem no quer. Ou ler o que no tem vontade. E todo mundo devia ter a oportunidade de experimentar um bocado nessa rea, at descobrir qual  a sua. 
  Durante 18 anos, eu tive uma livraria infantil. De vez em quando, chegavam uns pais ou avs com a mesma queixa: O Joozinho no 
<8>
gosta de ler, o que  que eu fao? Como eu acho que o ser humano  curioso por natureza e qualquer pessoa alfabetizada fica doida pra saber o segredo que tem dentro de um livro (desde que ningum esteja tentando lhe impingir essa leitura feito remdio amargo pela goela abaixo), no acredito mesmo nessa histria de criana no gostar de ler. Ento, o que eu dizia naqueles casos no variava muito. 
  A primeira coisa era algo como pra de encher o saco do Joozinho com essa histria de que ele tem que ler. Geralmente, em termos mais delicados: Por que voc no experimenta aliviar a presso em cima dele, e passar uns seis meses sem dar conselhos de leitura?. 
  O passo seguinte era uma sugesto: Experimente deixar um livro como este ao alcance do Joozinho, num lugar onde ele possa ler escondido, sem parecer que est fazendo a sua vontade. No banheiro, por exemplo. E o que eu chamava de *um livro como este*, j na minha mo estendida em oferta, podia ser um exemplar de *O Menino Maluquinho*, do Ziraldo, ou do *Marcelo, Marmelo, Martelo*, da Ruth Rocha, ou de *O Gnio do Crime*, do Joo Carlos Marinho. Havia vrios outros ttulos que tambm serviam. Mas o fato  que, em 18 anos de experincia, NUNCA, nem uma nica vez, apareceu depois um pai reclamando que aquela sugesto no tinha dado certo. Pelo contrrio, incontveis vezes o encontro seguinte j inclua um Joozinho entusiasmado, comentando o livro lido e disposto a fazer novas descobertas. 
  Para adolescentes e jovens, a coisa  um pouco mais complicada. No porque no haja livro bom assim como os que citei. Pelo contrrio, tem de monto. Eu seria capaz de encher pginas e pginas s dando sugestes e comentando cada uma delas. A quantidade chega at a atrapalhar a escolha, no  esse o problema. Mas a j entram em cena muitas outras variveis. 
  O flego de leitura do sujeito, por exemplo. Igualzinho ao que acontece nos esportes. Como quem sabe que no vai agentar jogar 
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noventa minutos, e ento nem bate uma bolinha, dizendo que acha futebol um jogo idiota. H quem desanime s de ver o nmero de pginas do livro, ou o tamanho da letra, ou o fato de no ter ilustrao. Nesse caso, o cara acha que vai ficar de lngua de fora e pagar o maior mico. No percebe que no est competindo com ningum. Tambm no tem ningum na arquibancada olhando sua *performance*. D para levar o tempo que quiser para chegar ao fim do li-
 vro. Ler uma pgina por dia, por exemplo, se no quiser ir mais depressa. Num livro como este aqui, d pra fazer isso -- as histrias so curtinhas. 
  Para outros candidatos a leitor, no  uma questo de flego, mas de medo de no ter musculatura para ler. De s dar chute chocho e a bola no ir longe. De no agentar a fora do que est escrito, no entender umas palavras, no perceber o que o autor quer dizer e ficar se achando um burro. Se nunca usar, o msculo pode acabar to atrofiado que o cara no consegue nem mastigar, fica feito um beb, s come papinha, sopa e sorvete. Incapaz de traar um churrasco -- para no falar em ir ao supermercado trazer a carne, ou plantar a prpria horta. D um trabalho... Quando vejo essa atitude, sempre me lembro daquela frase: Acha que educao custa caro? Experimente s a ignorncia... Mas, de qualquer modo, d tambm para ser solidrio com quem ainda no teve chance de desenvolver sua musculatura leitora. Tudo bem, vamos devagar. Lendo textos curtos, fceis, divertidos, variados, numa linguagem clara e parecida com a que a gente fala todo dia (e toda noite, no h limites).  s folhear este livro. Pode ser que alguma histria atraia sua ateno e mostre que, mesmo que uma ou outra palavra lhe escape, ningum est falando complicado.
  A praia do Verissimo  o cotidiano -- principalmente na intimidade. As conversas entre quatro paredes, as lembranas solitrias de infncias e adolescncias constantemente passadas a limpo, os desgnios de Deus (em geral, mascarados sob a forma clssica das velhas anedotas 
<10>
sobre um grupo de pessoas que morre e se apresenta diante de So Pedro). Mas o tema no  o mais importante. Sobre qualquer assunto e a qualquer pretexto, o autor revela suas obsesses, fala das mesmas coisas, preocupa-se com o social e o tico, despreza solenemente o econmico... e encontra sempre uma maneira nova de fazer isso, como se nunca o tivesse feito antes. As situaes podem ser cotidianas, mas os ngulos geralmente so inslitos e inesperados. Ou ento, reforam o j esperado, mas com to exatas pitadas de exagero que a caricatura at parece um retrato realista pelo avesso, em que o lado cmico  revelado em sua verdadeira grandeza e o sentido profundo aparece com nitidez. 
  Para conseguir isso, Luis Fernando Verissimo conta com seu magistral domnio da linguagem e do ritmo da narrao. Tem uma admirvel economia no uso das palavras -- tudo  enxuto, nada sobra. Seus dilogos do at a impresso de que saram de uma fita gravada. Mas  s a gente lembrar da realidade das transcries de conversas gravadas (cada vez mais freqentes nas denncias de escndalos pela imprensa), para perceber como essa impresso  falsa. Estamos exatamente diante daquele processo que Carlos Drummond de Andrade descreveu to bem, ao dizer que queria a beleza da simplicidade -- mas no a beleza do que nasceu simples e sim a beleza do que ficou simples. Fruto de ateno impiedosa, muito trabalho e aguda conscincia de como cortar. 
  Que ningum se engane. Pode parecer que Luis Fernando Verissimo  que nem passarinho: abre o bico e sai cantando sem qualquer esforo, puro dom natural. Mas em arte isso no existe. E estamos falando de um artista da palavra. Algum que *v* a linguagem. Se algum duvida, v direto a uma das crnicas selecionadas, como Palavreado. Mas se no quiser pensar em nada disso, no faz mal. Relaxe e aproveite. Curta as histrias, as piadas, o jeito de falar. Seja nos relatos de desencontros que chamamos de *Equvocos*, nas historinhas com moral 
<11>
escondida que batizei de *Fbulas*, nas divagaes sobre um tema (*Falando Srio*), nas memrias (*Outros Tempos*), nas brincadeiras com a linguagem ou o estilo. Sempre uma gostosura. Puro prazer. Um jardim de delcias. 
  Aposto que, em sua maioria, os novos leitores vo se viciar em livro e sair procurando outros textos, de outros autores. Com vontade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? O Verissimo nunca pensou que ia ser escritor quando crescesse. Seu negcio era mesmo um bom solo de saxofone, instrumento em que ainda arrasa, escondido. Mas com essa histria de ser msico, desenvolveu tanto o ouvido que acabou assim: hoje ele ouve (e conta pra ns) at o que pensamos, sentimos e sonhamos em silncio. Em qualquer idade. 

               oooooooooooo
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*Equvocos*

A Espada

  *Uma famlia de classe mdia alta*. Pai, mulher, um filho de sete anos.  a noite do dia em que o filho fez sete anos. A me recolhe os detritos da festa. O pai ajuda o filho a guardar os presentes que ganhou dos amigos. Nota que o filho est quieto e srio, mas pensa:  o cansao. Afinal ele passou o dia correndo de um lado para o outro, comendo cachorro-quente e sorvete, brincando com os convidados por dentro e por fora da casa. Tem que estar cansado. 
  -- Quanto presente, hein, filho? 
  -- . 
  -- E esta espada. Mas que beleza. Esta eu no tinha visto. 
  -- Pai... 
<p>
  -- E como pesa! Parece uma espada de verdade.  de metal mesmo. Quem foi que deu? 
  -- Era sobre isso que eu queria falar com voc. 
  O pai estranha a seriedade do filho. Nunca o viu assim. Nunca viu nenhum garoto de sete anos srio assim. Solene assim. Coisa estranha... O filho tira a espada da mo do pai. Diz: 
<16>
  -- Pai, eu sou Thunder Boy. 
  -- Thunder Boy? 
  -- Garoto Trovo. 
  -- Muito bem, meu filho. Agora vamos pra cama. 
  -- Espere. Esta espada. Estava escrito. Eu a receberia quando fizesse sete anos. 
  O pai se controla para no rir. Pelo menos a leitura de histria em quadrinhos est ajudando a gramtica do guri. Eu a receberia... O guri continua. 
  -- Hoje ela veio.  um sinal. Devo assumir meu destino. A espada passa a um novo Thunder Boy a cada gerao. Tem sido assim desde que ela caiu do cu, no vale sagrado de Bem Tael, h sete mil anos, e foi empunhada por Ramil, o primeiro Garoto Trovo. 
  O pai est impressionado. No reconhece a voz do filho. E a gravidade do seu olhar. Est decidido. Vai cortar as histrias em quadrinhos por uns tempos. 
  -- Certo, filho. Mas agora vamos... 
  -- Vou ter que sair de casa. Quero que voc explique  mame. Vai ser duro para ela. Conto com voc para apoi-la. Diga que estava escrito. Era o meu destino. 
  -- Ns nunca mais vamos ver voc? -- pergunta o pai, resolvendo entrar no jogo do filho enquanto o encaminha, sutilmente, para a cama. 
  -- Claro que sim. A espada do Thunder Boy est a servio do bem e da justia. Enquanto vocs forem pessoas boas e justas podero contar com a minha ajuda. 
  -- Ainda bem -- diz o pai. 
  E no diz mais nada. Porque v o filho dirigir-se para a janela do seu quarto, e erguer a espada como uma cruz, e gritar para os cus Ramil!. E ouve um trovo que faz estremecer a casa. E v a espada iluminar-se e ficar azul. E o seu filho tambm. 
<17>
  O pai encontra a mulher na sala. Ela diz: 
  -- Viu s? Trovoada. V entender este tempo. 
  -- Quem foi que deu a espada pra ele? 
  -- No foi voc? Pensei que tivesse sido voc. 
  -- Tenho uma coisa pra te contar. 
  -- O que ? 
  -- Senta, primeiro. 

               ::::::::::::::::::::::::

<18>
O Maraj

  *A famlia toda ria* de dona Morgadinha e dizia que ela estava sempre esperando a visita do Maraj de Jaipur. Dona Morgadinha no podia ver uma coisa fora do lugar, uma ponta de poeira em seus mveis ou uma mancha em seus vidros e cristais. Gemia baixinho quando algum esquecia um sapato no corredor, uma toalha no quarto ou -- ai, ai, ai -- uma almofada torta no sof da sala. Baixinha, resoluta, percorria a casa com uma flanela na mo, o olho vivo contra qualquer incurso do p, da cinza, do inimigo nos seus domnios. 
  Dona Morgadinha era uma alma simples. No lia jornal, no lia nada. Achava que jornal sujava os dedos e livro juntava mofo e bichos. O marido de dona Morgadinha, que ela amava com devoo apesar do seu hbito de limpar a orelha com uma tampa de caneta Bic, estabelecera um limite para sua compulso de limpeza. Ela no podia entrar na sua biblioteca. Sua jurisdio acabava na porta. Ali dentro s ele podia limpar, e nunca limpava. E, nas raras vezes em que dona Morgadinha chegava  porta do escritrio proibido para falar com o marido, este 
<19>
fazia questo de desafi-la. Botava os ps em cima dos mveis. Atirava os sapatos longe. Uma vez chegara a tirar uma meia e jogar em cima da lmpada s para ver a cara da mulher. Sacudia a ponta do charuto sobre um cinzeiro cheio e errava deliberadamente o alvo. Dona Morgadinha ento fechava os olhos e, incapaz de se controlar, lustrava com a sua flanela o trinco da porta. 
  O marido de dona Morgadinha contava, entre divertido e horrorizado, da vez que levara a mulher a uma recepo diplomtica. 
  -- Percorremos a fila de recepo, e quando vi, a Morgadinha estava sendo apresentada ao embaixador. O embaixador se curvou, fez uma reverncia, e de repente a Morgadinha levou a mo e tirou um fio de cabelo da lapela do embaixador! 
<p>
  -- No pude resistir -- explicava dona Morgadinha, sria, entre as risadas dos outros. 
  -- E ainda deu uma espanada, com a mo, no seu ombro. 
  -- Caspa -- suspirava dona Morgadinha, desiludida com o corpo diplomtico. 
  Quis o destino que os filhos de dona Morgadinha puxassem pelo pai no relaxamento e na irreverncia. Todos os trs. 
  -- Meu filho, a no  lugar de deixar os livros da escola. 
  -- Qual , me? Est esperando o Maraj? 
  -- Minha filha, a sala no  lugar de cortar as unhas. 
  -- Ih, hoje  dia do Maraj chegar. 
  -- Oscar, na mesa?! 
  -- Quando o Maraj vier almoar, eu prometo que no fao isto. 
  Certa manh bateram  porta. Dona Morgadinha, que comandava a faxina diria da casa com severidade militar, fez sinal para as empregadas de que ela mesma iria abrir. Na porta estava um homem moreno, de terno, gravata -- e turbante! Dona Morgadinha, que uma vez brigara com o carteiro porque a sua cala estava sem friso, olhou o homem de alto a baixo e no encontrou o que dizer. 
<20>
  -- Dona Morgadinha? 
  -- Sim. 
  -- Meu amo manda o seu carto e pede permisso para vir visit-la s cinco. 
  Dona Morgadinha olhou o carto que o homem lhe entregara. Ali estava, com todas as letras douradas, Maraj de Jaipur. No conseguiu falar. Fez que sim com a cabea, desconcertada. O homem fez uma mesura e desapareceu antes que dona Morgadinha recuperasse a fala. 
  As empregadas receberam ordens de recomear a faxina, do princpio. Dona Morgadinha anunciou para a famlia que naquele dia no haveria almoo. No queria cheiro de comida na casa. E era bom todos sarem para a rua at a noite, para no haver perigo de deslocarem as almofadas. Pai e filhos se entreolharam e concordaram: 
  -- O Maraj vem hoje. 
  Dona Morgadinha apenas sorriu. E estava com o mesmo sorriso quando o marido e os filhos chegaram em casa  noite, depois de comerem um *cheeseburger* na esquina, fazendo bastante barulho e manchando a roupa. Dona Morgadinha no contou para ningum da visita do Maraj. Do seu terno branco, do rubi no seu turbante, da sua barba grisalha e distinta. E da conversa que tinham tido, das cinco s sete, sozinhos, entre goles de ch e mordiscadas em sanduches de aspargo, sobre coisas distantes, sobre o linho e o mrmore e a purificao dos espritos. Naquela noite o marido de dona Morgadinha surpreendeu a mulher com o olhar perdido na frente do espelho. Ela estava to distrada que foi para a cama sem escovar as unhas, usar o colrio e rearrumar os armrios, como fazia sempre. 
  O Maraj combinou com dona Morgadinha que voltaria dois dias depois,  mesma hora. Estes dois dias dona Morgadinha passou sentada, sem notar nada, esquecida at da sua flanela. O filho mais velho chegou a trazer um vira-lata da rua para fazer xixi no p da poltrona, mas no conseguiu despertar dona Morgadinha do seu devaneio.
<21> 
  Depois de duas semanas de visitas constantes do Maraj e do mais absoluto descaso de dona Morgadinha pela higiene da famlia e da casa, o marido resolveu que j era demais. Procurou o seu amigo Turco, que era rabe e tinha cara de hindu e que ele contratara para se fingir de Maraj e fazer uma brincadeira com a mulher, e disse que era hora de acabar com a brincadeira. Turco, meio sem jeito, disse que com ele tudo bem, mas dona Morgadinha... 
  -- O qu? -- quis saber o marido, desconfiado...
  -- Ela levou a srio. Est falando at em fugir comigo e ir morar no meu palcio em Jaipur. Negcio chato. Acho melhor contar a verdade para ela e... 
  Mas o marido de dona Morgadinha percebeu o que fizera. E percebeu que com as almas simples no se brinca. Se descobrisse que fora enganada, dona Morgadinha era capaz de se matar, engolindo detergente. No, no. Ela no merecia aquilo. Compungido, o marido pediu ao Turco que continuasse a visitar a mulher. Mas tentasse desiludi-la. Dando um arroto. Sei l. 

               ::::::::::::::::::::::::

<22>
O Homem Trocado

  *O homem acorda da anestesia* e olha em volta. Ainda est na sala de recuperao. H uma enfermeira 
<p>
do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem. 
  -- Tudo perfeito -- diz a enfermeira, sorrindo. 
  -- Eu estava com medo desta operao... 
  -- Por qu? No havia risco nenhum. 
  -- Comigo, sempre h risco. Minha vida tem sido uma srie de enganos... 
  E conta que os enganos comearam com seu nascimento. Houve uma troca de bebs no berrio e ele foi criado at os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira me, pois o pai abandonara a mulher depois que esta no soubera explicar o nascimento de um beb chins. 
  -- E o meu nome? Outro engano. 
<23>
  -- Seu nome no  Lrio? 
  -- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartrio e... 
  Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que no fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas no conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome no apareceu na lista. 
  -- H anos que a minha conta do telefone vem com cifras incrveis. No ms passado tive que pagar mais de R$3 mil. 
  -- O senhor no faz chamadas interurbanas? 
  -- Eu no tenho telefone! 
  Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. No foram felizes. 
  -- Por qu? 
  -- Ela me enganava. 
  Fora preso por engano. Vrias vezes. Recebia intimaes para pagar dvidas que no fazia. At tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o mdico dizer: 
  -- O senhor est desenganado. 
<p>
  Mas tambm fora um engano do mdico. No era to grave assim. Uma simples apendicite. 
  -- Se voc diz que a operao foi bem...
  A enfermeira parou de sorrir.
  -- Apendicite? -- perguntou, hesitante. 
  -- . A operao era para tirar o apndice. 
  -- No era para trocar de sexo? 

               ::::::::::::::::::::::::

<24>
A Foto

  *Foi numa festa de famlia*, dessas de fim de ano. J que o bisav estava morre no morre, decidiram tirar uma fotografia de toda a famlia reunida, talvez pela ltima vez. A bisa e o bisa sentados, filhos, filhas, noras, genros e netos em volta, bisnetos na frente, esparramados pelo cho. Castelo, o dono da cmera, comandou a pose, depois tirou o olho do visor e ofereceu a cmera a quem ia tirar a fotografia. Mas quem ia tirar a fotografia? 
  -- Tira voc mesmo, u. 
  -- Ah, ? E eu no saio na foto?
  O Castelo era o genro mais velho. O primeiro genro. O que sustentava os velhos. Tinha que estar na fotografia. 
  -- Tiro eu -- disse o marido da Bitinha. 
  -- Voc fica aqui -- comandou a Bitinha.
  Havia uma certa resistncia ao marido da Bitinha na famlia. A Bitinha, orgulhosa, insistia para que o marido reagisse. No deixa eles te humilharem, Mrio Csar, dizia sempre. O Mrio Csar ficou 
<25>
firme onde estava, do lado da mulher. A prpria Bitinha fez a sugesto maldosa: 
  -- Acho que quem deve tirar  o Dudu... 
  O Dudu era o filho mais novo de Andradina, uma das noras, casada com o Luiz Olavo. Havia a suspeita, nunca claramente anunciada, de que no fosse filho do Luiz Olavo. O Dudu se prontificou a tirar a fotografia, mas a Andradina segurou o filho. 
  -- S faltava essa, o Dudu no sair.
  E agora?
  -- P, Castelo. Voc disse que essa cmera s faltava falar. E no tem nem *timer*! 
  O Castelo impvido. Tinham cimes dele. Porque ele tinha um Santana do ano. Porque comprara a cmera num *duty free* da Europa. Alis, o apelido dele entre os outros era Dutifri, mas ele no sabia. 
  -- Revezamento -- sugeriu algum. -- Cada genro bate uma foto em que ele no aparece, e... 
  A idia foi sepultada em protestos. Tinha que ser toda a famlia reunida em volta da bisa. Foi quando o prprio bisa se ergueu, caminhou decididamente at o Castelo e arrancou a cmera da sua mo. 
  -- D aqui. 
  -- Mas seu Domcio... 
  -- Vai pra l e fica quieto. 
  -- Papai, o senhor tem que sair na foto. Seno no tem sentido! 
  -- Eu fico implcito -- disse o velho, j com o olho no visor. 
  E antes que houvesse mais protestos, acionou a cmera, tirou a foto e foi dormir. 

               oooooooooooo
<26>
<p>
*Outros Tempos*

A Bola

  *O pai deu uma bola de presente* ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma nmero 5 sem tento oficial de couro. Agora no era mais de couro, era de plstico. Mas era uma bola. 
  O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse Legal!. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou no querem magoar o velho. Depois comeou a girar a bola,  procura de alguma coisa. 
  -- Como  que liga? -- perguntou. 
  -- Como, como  que liga? No se liga. 
  O garoto procurou dentro do papel de embrulho. 
  -- No tem manual de instruo? 
  O pai comeou a desanimar e a pensar que os tempos so outros. 
<p>
Que os tempos so decididamente outros. 
  -- No precisa manual de instruo. 
  -- O que  que ela faz? 
<30>
  -- Ela no faz nada. Voc  que faz coisas com ela. 
  -- O qu? 
  -- Controla, chuta... 
  -- Ah, ento  uma bola. 
  -- Claro que  uma bola. 
  -- Uma bola, bola. Uma bola mesmo. 
  -- Voc pensou que fosse o qu? 
  -- Nada, no.
  O garoto agradeceu, disse Legal de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tev, com a bola nova do lado, manejando os controles de um *videogame*. Algo chamado *Monster Ball*, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de *blip* eletrnico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenao e racioc-
<p>
nio rpido. Estava ganhando da mquina. 
  O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do p, como antigamente, e chamou o garoto. 
  -- Filho, olha. 
  O garoto disse Legal mas no desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instruo fosse uma boa idia, pensou. Mas em ingls, para a garotada se interessar.

               ::::::::::::::::::::::::
 
<31>
Histria Estranha

  *Um homem vem caminhando* por um parque quando de repente se v com sete anos de idade. Est com quarenta, quarenta e poucos. De repente d com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde est a sua bab fazendo tric. No tem a menor dvida de que  ele mesmo. Reconhece a sua pr-
 pria cara, reconhece o banco e a bab. Tem uma vaga lembrana daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, pe as mos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lgrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa  a vida. Que coisa pior ainda  o tempo. Como eu era inocente. Como meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas no encontra o que dizer. Apenas abraa a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trs. 
  O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Tambm se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver 
<p>
quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental! 

<32>
               ::::::::::::::::::::::::

Vivendo e...

  *Eu sabia fazer pipa* e hoje no sei mais. Duvido que se hoje pegasse uma bola de gude conseguisse equilibr-la na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar, quanto mais jog-la com a preciso que tinha quando era garoto. Outra coisa: acabo de procurar no dicionrio, pela primeira vez, o significado da palavra gude. Quando era garoto nunca pensei nisso, eu sabia o que era gude. Gude era gude. 
  Juntando-se as duas mos de um determinado jeito, com os polegares para dentro, e assoprando pelo buraquinho, tirava-se um silvo bonito que inclusive variava de tom conforme o posicionamento das mos. Hoje no sei mais que jeito  esse. Eu sabia a frmula de fazer cola caseira. Algo envolvendo farinha e gua e muita confuso na cozinha, de onde ramos expulsos sob ameaas. Hoje no sei mais. A gente comeava a contar depois de ver um relmpago e o nmero a que chegasse quando ouvia a trovoada, multiplicado por outro nmero, dava a distncia exata do relmpago. No me lembro mais dos nmeros. 
<33>
  Ainda no terreno dos sons: tinha uma folha que a gente dobrava e, se ela rachasse de um certo jeito, dava um razovel pistom em miniatura. Nunca mais encontrei a tal folha. E espremendo-se a mo entre o brao e o corpo, claro, tinha-se o chamado trombone axilar, (**) que muito perturbava os mais velhos. No consigo mais tirar o mesmo som.  verdade que no tenho tentado com muito empenho, ainda mais com o pas na situao em que est. 
  Lembro o orgulho com que consegui, pela primeira vez, cuspir corretamente pelo espao adequado entre os dentes de cima e a ponta da lngua de modo que o cuspe ganhasse distncia e pudesse ser mirado. Com prtica, conseguia-se controlar a trajetria elptica (**1) da cusparada com uma mnima margem de erro. Era puro instinto. Hoje o mesmo feito requereria complicados clculos de balstica, e eu provavelmente s acertaria a frente da minha camisa. Outra habilidade perdida. 
  Na verdade, deve-se revisar aquela antiga frase.  vivendo e desaprendendo. No falo daquelas coisas que deixamos de fazer porque no temos mais as condies fsicas e a coragem de antigamente, como subir em bonde andando -- mesmo porque no h mais bondes andando. Falo da sabedoria desperdiada, das artes que nos abandonaram. Algumas at teis. Quem 
 nunca desejou ainda ter o cuspe certeiro de garoto para acertar em 
<p>
algum alvo contemporneo, bem no olho, e depois sair correndo? Eu j. 

               ::::::::::::::::::::::::

<34>
Rosquinha 

  *O apelido dele era Casco* e vinha da infncia. Uma irm mais velha descobrira uma mancha escura que subia pela sua perna e que a me, apreensiva, a princpio atribuiu a uma doena de pele. Em seguida descobriu que era sujeira mesmo. 
  -- Voc no toma banho, menino? 
  -- Tomo, me. 
  -- E no se esfrega? 
  Aquilo j era pedir demais. E a verdade  que muitas vezes seus banhos eram representaes. Ele fechava a porta do banheiro, ligava o chuveiro, forte, para que a me ouvisse o barulho, mas no entrava no chuveiro. Achava que dois banhos por semana era o mximo de que uma pessoa sensata precisava. Mais do que isso era mania. 
  O apelido pegou e, mesmo na sua adolescncia, eram freqentes as aluses familiares  sua falta de banho. Ele as agentava estoicamente. (**) Caluniadores no mereciam resposta. Mas um dia reagiu. 
<35>
  -- Sujo, no.
  -- Ah, ? -- disse a irm. -- E isto o que ?
  Com o dedo ela levantara do seu brao um filete de sujeira.
  -- Rosquinha no vale.
  -- Como no vale?
  -- Rosquinha, qualquer um.
  Entusiasmado com a prpria tese, continuou:
  -- Desafio qualquer um nesta casa a fazer o teste da rosquinha! 
  A irm, que tomava dois banhos por dia, o que ele classificava de exibicionismo, aceitou o desafio. Ele advertiu que passar o dedo, s, no bastava. Tinha que passar com deciso. E, realmente, o dedo levantou, da dobra do brao da irm, uma rosquinha, embora nfima, de sujeira. 
  -- Viu s? -- disse ele, triunfante. -- E digo mais: ningum no mundo est livre de uma rosquinha. 
  -- Ah, essa no. No mundo?
  Manteve a tese.
  -- Ningum. 
  -- A rainha Juliana? 
  -- Rosquinha. No p. Batata. 
  No dia seguinte, no entanto, a irm estava preparada para derrubar a sua defesa. 
  -- Casco... -- disse simplesmente. -- A Catherine Deneuve. (**1) 
  Ele hesitou. Pensou muito. Depois concedeu. A Catherine Deneuve, realmente, no. A irm, sadicamente, ainda fingiu que queria ajudar.
<36>
  -- Quem sabe atrs da orelha? 
<p>
  -- No, no -- disse o Casco tristemente, renunciando  sua tese. -- A Catherine Deneuve, nem atrs da orelha. 

               oooooooooooo
<p>
<39>
*De Olho na Linguagem*

Sexa

  -- *Pai*... 
  -- Hmmm? 
  -- Como  o feminino de sexo? 
  -- O qu?
  -- O feminino de sexo. 
  -- No tem. 
  -- Sexo no tem feminino? 
  -- No. 
  -- S tem sexo masculino? 
  -- . Quer dizer, no. Existem dois sexos. Masculino e feminino. 
  -- E como  o feminino de sexo? 
  -- No tem feminino. Sexo  sempre masculino. 
  -- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino. 
  -- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra sexo  masculina. O sexo masculino, o sexo feminino. 
  -- No devia ser a sexa? 
<40>
  -- No. 
  -- Por que no? 
  -- Porque no! Desculpe. Porque no. Sexo  sempre masculino. 
  -- O sexo da mulher  masculino? 
  -- . No! O sexo da mulher  feminino. 
  -- E como  o feminino? 
  -- Sexo mesmo. Igual ao do homem. 
  -- O sexo da mulher  igual ao do homem? 
  -- . Quer dizer... Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo? 
  -- Certo. 
  -- So duas coisas diferentes. 
  -- Ento como  o feminino de sexo? 
  --  igual ao masculino. 
  -- Mas no so diferentes? 
  -- No. Ou, so! Mas a palavra  a mesma. Muda o sexo, mas no muda a palavra. 
  -- Mas ento no muda o sexo.  sempre masculino. 
  -- A *palavra*  masculina. 
  -- No. A palavra  feminino. Se fosse masculino seria o pal... 
  -- Chega! Vai brincar, vai.
  O garoto sai e a me entra. O pai comenta:
  -- Temos que ficar de olho nesse guri... 
  -- Por qu? 
  -- Ele s pensa em gramtica. 

               ::::::::::::::::::::::::

<41>
P, P, P

  *A americana estava h pouco tempo* no Brasil. Queria aprender o portugus depressa, por isto prestava muita ateno em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita ateno. 
  Achava curioso, por exemplo, o pois . Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o pois . Era uma maneira tipicamente brasileira de no ficar quieto e ao mesmo tempo no dizer nada. Quando no sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguia, o brasileiro dizia pois . Ela no agentava mais o pois . 
  Tambm tinha dificuldade com o pois sim e o pois no. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa. 
  -- Pois no -- disse eu, polidamente. 
  --  exatamente isso! O que quer dizer pois no? 
  -- Bom. Voc me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse pois no. Quer dizer, pode, esteja  vontade, estou ouvindo, estou s suas ordens.... 
  -- Em outras palavras, quer dizer sim. 
<42>
  -- . 
  -- Ento por que no se diz pois sim? 
  -- Porque pois sim quer dizer no. 
  -- O qu?! 
  -- Se voc disser alguma coisa que no  verdade, com a qual eu no concordo, ou acho difcil de acreditar, eu digo pois sim. 
  -- Que significa pois no? 
  -- Sim. Isto , no. Porque pois no significa sim. 
  -- Por qu? 
  -- Porque o pois, no caso, d o sentido contrrio, entende? Quando se diz pois no, est-se dizendo que seria impossvel, no caso, dizer no. Seria inconcebvel dizer no. Eu dizer no? Aqui, . 
  -- Onde? 
  -- Nada. Esquece. J pois sim quer dizer ora, sim!. Ora se eu vou aceitar isso. Ora, no me faa rir. R, r, r. 
  -- Pois quer dizer ora? 
  -- Ahn... Mais ou menos. 
  -- Que lngua! 
  Eu quase disse: E vocs, que escrevem tough e dizem tf?, mas me contive. Afinal, as intenes dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu: 
<p>
  -- Seria mais fcil no dizer o pois.
  Eu j estava com preguia.
  -- Pois . 
  -- No me diz pois ! 
  Mas o que ela no entendia mesmo era o p, p, p. 
  -- Qual o significado exato de p, p, p. 
  -- Como ? 
  -- P, p, p. 
<43>
  -- P  p. Shovel. Aquele negcio que a gente pega assim e... 
  -- P eu sei o que . Mas p trs vezes? 
  -- Onde foi que voc ouviu isso? 
  --  a coisa que eu mais ouo. Quando brasileiro comea a contar histria, sempre entra o p, p, p. 
  Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a ns, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com histria: 
  -- Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando 
chega o Tlio. Conversa vai, conversa vem e coisa e tal e p, p, p... Eu e a americana nos entreolhamos.  
  -- Funciona como reticncias -- sugeri eu. -- Significa, na verdade, trs pontinhos. Ponto, ponto, ponto. 
  -- Mas por que p e no p? Ou pi ou pu? Ou etctera? 
  Me controlei para no dizer -- E o problema dos negros nos Estados Unidos?. 
  Ela continuou: 
  -- E por que tem que ser trs vezes? 
  -- Por causa do ritmo. P, p, p. S p, p no d. 
  -- E por que p? 
  -- Porque sei l -- disse, didaticamente. 
  O outro continuava sua histria. Histria de brasileiro no se interrompe facilmente. 
  -- E a o Tlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque p, p, p... 
  --  uma expresso utilitria -- intervim. -- Substitui vrias palavras (no caso, toda a estranha histria do Tlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas trs.  um smbolo de 
garrulice (**) vazia, que no merece ser reproduzida. So palavras que... 
<44>
  -- Mas no so palavras. So s barulhos. P, p, p. 
  -- Pois  -- disse eu. 
  Ela foi embora, com a cabea alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Tlio papeando sozinho. 

               ::::::::::::::::::::::::

<45>
Tintim

  *Durante alguns anos*, o tintim me intrigou. Tintim por tintim: o que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema mtrico, como a braa, a lgua etc. Outro mistrio era o triz. Qual a exata definio de um triz?  uma subdiviso de tempo ou de espao. As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma frao de segundo ou de milmetro. Mas que frao? O triz talvez correspondesse a meio tintim, ou o tintim a um dcimo de triz. Tanto o tintim quanto o triz pertenceriam ao obscuro mundo das microcoisas. H quem diga que no existe uma frao mnima de matria, que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o infinito para fora -- isto , o espao sem fim, depois que o Universo acaba -- existiria o infinito para dentro. A menor frao da menor partcula do ltimo tomo ainda seria formada por dois trizes, e cada triz por dois tintins, e cada tintim por dois trizes, e assim por diante, at a loucura. 
<46>
  Descobri, finalmente, o que significa tintim.  verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionrio mais cedo, minha ignorncia no teria durado tanto. Mas o bvio, s vezes,  a ltima coisa que nos ocorre. Est no dicionrio. Tintim, vocbulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas. Originalmente, portanto, tintim por tintim indicava um pagamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrrio de hoje, quando so feitas de papelo e se chocam sem rudo. 
  Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por sim-sim. O gordo incontrolvel progrediria pela vida quindim por quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-plim. E os adultos seguiriam ganhando o salrio tin por tin (olha a, a inflao j levou dois tins). Resolvido o mistrio do tintim, que no  uma subdiviso nem de tempo nem de espao nem de matria, resta o triz. O dicionrio no nos ajuda. Triz, diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vrgulas, zeros, definies para triz. Substantivo feminino. Popular. Ictercia. Triz quer dizer ictercia. Ou teremos que mudar todas as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de assunto. Acho melhor mudar de assunto. O Universo j tem problemas demais. 

               ::::::::::::::::::::::::

<47>
Papos

  -- *Me disseram*... 
  -- Disseram-me. 
  -- Hein? 
  -- O correto  disseram-me. No me disseram. 
  -- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou  digo-te? 
  -- O qu? 
  -- Digo-te que voc... 
<p>
  -- O te e o voc no combinam. 
  -- Lhe digo? 
  -- Tambm no. O que voc ia me dizer? 
  -- Que voc est sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como  que se diz? 
  -- Partir-te a cara. 
  -- Pois . Parti-la hei de, se voc no parar de me corrigir. Ou corrigir-me. 
  --  para o seu bem.
<48> 
  -- Dispenso as suas correes. V se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correo e eu... 
  -- O qu? 
  -- O mato. 
  -- Que mato? 
  -- Mato-o. Mato-lhe. Mato voc. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? 
  -- Eu s estava querendo... 
  -- Pois esquea-o e pra-te. Pronome no lugar certo  elitismo! 
  -- Se voc prefere falar errado... 
  -- Falo como todo mundo fala. O importante  me entenderem. Ou entenderem-me? 
  -- No caso... no sei. 
  -- Ah, no sabe? No o sabes? Sabes-lo no? 
  -- Esquece. 
  -- No. Como esquece? Voc prefere falar errado? E o certo  esquece ou esquea? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos. 
  -- Depende. 
  -- Depende. Perfeito. No o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas no sabes-o. 
  -- Est bem, est bem. Desculpe. Fale como quiser. 
  -- Agradeo-lhe a permisso para falar errado que mas ds. Mas no posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia. 
  -- Por qu? 
<p>
  -- Porque, com todo este papo, esqueci-lo. 

               ::::::::::::::::::::::::

O Jargo

  *Sou fascinado pela linguagem nutica*, embora minha experincia no mar se resuma a algumas passagens em transatlnticos, onde a nica linguagem tcnica que voc precisa saber  a que horas servem 
o buf?. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjo em escada rolante. Mas, na minha imaginao, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialssimos nomes da equipagem. 
  Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens  tripulao: 
  -- Recolher a traquineta! 
  -- Largar a vela bimbo, no podemos perder esse Vizeu. 
  (O Vizeu  um vento que nasce na costa ocidental da frica, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a bombordo, cheirando a especiarias, carcaas de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive, no primrio.) 
  -- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua. 
<50>
  -- Cuidado com a sanfona de 
 Abelardo! 
  (A sanfona  um perigoso fenmeno que ocorre na vela parruda em certas condies atmosfricas e que, se no contido a tempo, pode decapitar o piloto. At hoje no encontraram a cabea do comodoro Abelardo.) 
  -- Cruzar a spnola! Domar a esptula! Montar a sirigaita! Tudo a macambzio e dois quartos de trela, seno afundamos e o capito  o primeiro a pular! 
  -- Cortar o cabo de Eustquio! 
  Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargo falso assim, com pseudnimo. No sei quanto tempo duraria at eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que no seria pouco. 

               ::::::::::::::::::::::::

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Pudor

  *Certas palavras nos do a impresso* de que voam, ao sarem da boca. Slfide, por exemplo.  dizer slfide e ficar vendo suas evolues no ar, como as de uma borboleta. No tem nada a ver com o que a palavra significa. Slfide, eu sei,  o feminino de silfo, o esprito do ar, e quer mesmo dizer uma coisa difana, leve, borboleteante. Mas experimente dizer silfo. No voou, certo? Ao contrrio da sua mulher, silfo no voa. Tem o alcance mximo de uma cuspida. Silfo, zupt, plof. A prpria palavra borboleta no voa, ou voa mal. Bate as asas, tenta se manter area mas choca-se contra a parede. Sempre achei que a palavra mais bonita da lngua portuguesa  sobrancelha. Esta no voa mas paira no ar, como a neblina das manhs at ser desmanchada pelo sol. J a terrvel palavra seborria escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete. 
  Trilho era uma palavra pouco usada, antigamente. Uma pessoa podia nascer e morrer sem jamais ouvir a palavra trilho, ou s ouvi-la em vagas especulaes sobre as estrelas do Universo. O trilho 
<52>
ficava um pouco antes do infinito. Dizia-se trilho em vez de dizer incalculvel ou sei l. Certa vez (autobiografia) tive de responder a uma questo de Geografia no colgio. Naquele tempo a pior coisa do mundo era ser chamado a responder qualquer coisa no colgio. De p, na frente dos outros e -- o pior de tudo -- em voz alta. Depois descobri que existem coisas piores, como a misria, a morte e a comida inglesa. Mas naquela poca o pior era aquilo. Senhor Verissimo! Era eu. Era irremediavelmente eu. Responda, qual  a populao da China? Eu no sabia. Estava de p, na frente dos outros, e tinha que dizer em voz alta o que no sabia. Qual era a populao da China? Com alguma presena de esprito eu poderia dizer: A senhora quer dizer neste exato momento?, dando a entender que, como o que mais acontece na China  nascer gente, uma resposta exata seria impossvel. Mas meu esprito no estava ali. Meu esprito ainda estava em casa, dormindo. Ento, senhor Verissimo, qual  a populao da China? E eu respondi:
  -- Numerosa. 
  Ganhei zero, claro. Mas trilho, entende, era sinnimo de numeroso. No era um nmero, era uma generalizao. Voc dizia trilho e a palavra subia como um balo desamarrado, no dava tempo nem para ver a sua cor. E hoje no passa dia em que no se oua falar em trilhes. O trilho vai, aos poucos, se tornando nosso ntimo.  o mais novo personagem da nossa aflio. Quantos zeros tem um trilho? Doze, acertei? Se os zeros fossem pneus, o trilho seria uma jamanta daquelas de carregar gerador para usina atmica parada. Felizmente vem a uma reforma e outra moeda, com menos zeros e mais respeito. Seno chegaramos  desmoralizao completa. 
  -- E o troco do meu tri? 
  -- Serve uma bala? 
  Desconfio que o que apressar a reforma  a iminncia do quatrilho. Quatrilho  pior que seborria. Depois de dizer "quatrilho"
<53>
voc tem que pular para trs, seno ele esmaga os seus ps. E quatrilho no  como, por exemplo, otorrino, que cai no cho e corre para um canto. Quatrilho cai, pesadamente, no cho e fica. Voc tenta juntar a palavra do cho e ela quebra. Tenta remont-la -- fica troliqua e sobra o ag. A mente humana, ou pelo menos a mente brasileira, no est preparada para o quatrilho. As futuras geraes precisam ser protegidas do qua-
 trilho. As reformas monetrias, (**) quando vm, so sempre para acomodar as mquinas 
calculadoras e o nosso senso do ridculo, j que caem os zeros mas 
nada, realmente, muda. A prxima reforma seria a primeira motivada, tambm, por um pudor lingstico. No momento em que o quatrilho se instalasse no nosso vocabulrio cotidiano, mesmo que fosse s para descrever a dvida interna, alguma coisa se romperia na alma brasileira. Seria o caos. 
  E caos, voc sabe.  uma palavra chicl-balo. Pode explodir na nossa cara.

               ::::::::::::::::::::::::

<54>
<P>
Palavreado

  *Gosto da palavra fornida*.  uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Se voc l que uma mulher  bem fornida, sabe exatamente como ela . No gorda mas cheia, rolia, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhana com forno. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho. 
  No posso ver a palavra lascvia sem pensar numa mulher, no fornida mas magra e comprida. Lascvia, imperatriz de Cntaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia. 
  Um dia chega a Cntaro um jovem trovador, Lipdio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lana um olhar cheio de betume e cabriol. Segue-a atravs dos becos de Cntaro at um sumrio -- uma espcie de jardim enclausurado --, onde ela deixa cair a bandalheira.  Lascvia. Ela sobe por um escrutnio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porcincula. Lipdio 
<55>
a segue. V-se num longo conluio que leva a uma prtese entreaberta. Ele entra. Lascvia est sentada num trunfo em frente ao seu *pinochet*, penteando-se. Lipdio, que sempre carrega consigo um fanfarro (instrumento primitivo de sete cordas), comea a cantar uma balada. Lascvia bate palmas e chama: 
  -- Cisterna! Vanglria! 
  So suas escravas que vm prepar-la para os ritos do amor. Lipdio desfaz-se de suas roupas -- o strapa, o lmpen, os dois ftuos  at ficar s de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascvia diz: 
<p>
  -- Cala-te, sndalo. Quero sentir o seu vespcio junto ao meu *passe-partout*. 
  Atrs de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabea do trovador. 
  A histria s no acaba mal porque o cavalo de Lipdio, Escarcu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue aos sassafrs, e d o alarme. Lipdio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcu o espera. 
  Lascvia manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lipdio e Escarcu j galopam por motins e valiums, longe da vingana de Lascvia. 
  Falcia  um animal multiforme que nunca est onde parece estar. Um dia um viajante chamado Pseudnimo (no  o seu verdadeiro nome) chega  casa de um criador de falcias, Otorrino. Comenta que os negcios de Otorrino devem estar indo muito bem, pois seus campos esto cheios de falcias. Mas Otorrino no parece muito contente. Lamenta-se:
<56>
  -- As falcias nunca esto onde parecem estar. Se elas parecem estar no meu campo  porque esto em outro lugar. 
  E chora: 
  -- Todos os dias, de manh, eu e minha mulher, Bazfia, samos pelos campos a contar falcias. E cada dia h mais falcias no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais pobre, pois so mais falcias que eu no tenho. 
  -- Fao-lhe uma proposta -- disse Pseudnimo. -- Compro todas as falcias do seu campo e pago um pinote por cada uma. 
  -- Um pinote por cada uma? -- disse Otorrino, mal conseguindo disfarar o seu entusiasmo. -- Eu devo no ter umas cinco mil falcias. 
<p>
  -- Pois pago cinco mil pinotes e levo todas as falcias que voc no tem. 
  -- Feito. 
  Otorrino e Bazfia arrebanharam as cinco mil falcias para Pseudnimo. Este abre o seu comicho e comea a tirar pinotes invisveis e coloc-los na palma da mo estendida de Otorrino. 
  -- No estou entendendo -- diz Otorrino. -- Onde esto os pinotes? 
  -- Os pinotes so como as falcias -- explica Pseudnimo. -- Nunca esto onde parecem estar. Voc est vendo algum pinote na sua mo? 
  -- Nenhum. 
  --  sinal de que eles esto a. No deixe cair. 
  E Pseudnimo seguiu viagem com cinco mil falcias, que vendeu para um frigorfico ingls, o Filho and Sons. Otorrino acordou no outro dia e olhou com satisfao para o seu campo vazio. Abriu o besunto, uma espcie de cofre, e olhou os pinotes que pareciam no estar ali. Estava rico! 
  Na cozinha, Bazfia botava veneno no seu piro. 
<57> 
  Lorota, para mim,  uma manicura gorda.  explorada pelo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pitu, um apartamento pequeno. Um dia batem na porta.  Martelo, o inspetor italiano. 
  -- *Dove est il ruo megano*? 
  -- Meu qu? 
  -- *Il fistulado del tuo matagoso umbrculo*. 
  -- O Falcatrua? Est trabalhando. 
  -- Sei. Com sua tragada de pernios. Magarefe, Barroco, Cantocho e Acepipe. Conheo bem o quintal. So uns melindres de marca maior. 
  -- Que foi que o Falcatrua fez? 
  -- Est vendendo falcia inglesa enlatada. 
  -- E da? 
<p>
  -- Da que dentro da lata no tem nada. Parco manolo! 

               oooooooooooo
<p>
*Fbulas*

<61>
Bobagem

  *Emocionado e um pouco bbado*, aos cinco minutos do ano-novo ele resolveu telefonar para o velho desafeto. 
  -- Al? 
  -- Al. Sou eu. 
  -- Eu quem? 
  -- Eu, p.
  O outro fez silncio. Depois disse:
  -- Ah. , voc. 
  -- Olha aqui, cara. Eu estou telefonando pra te desejar um feliz ano-novo. Entendeu? 
  -- Obrigado. 
  -- Obrigado, no. Olha aqui. Sei l, p... 
  -- Feliz ano-novo pra voc tambm. 
  -- Eu nem me lembro mais por que ns brigamos. Juro que no me lembro. 
  -- Eu tambm no lembro. 
<62>
<p>
  -- Ento, grande. Como vai Vivinha? 
  -- Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. As enxaquecas... 
  Ele ficou engasgado. De repente se deu conta de que tinha saudades at das enxaquecas da Vivinha. Como podiam ter passado tantos anos sem se ver? Como tinham deixado uma bobagem afast-los daquela maneira? As pessoas precisavam se reaproximar. Aquele seria o seu projeto para o fim do milnio. Reaproximar-se das pessoas. S dar importncia ao que aproximava. Puxa! Estava to enternecido com as enxaquecas da Vivinha que mal podia falar. 
  -- A vida  muito curta. Voc est me entendendo? Assim no d. 
  Era como se estivesse reclamando com o fornecedor. A vida vinha com a carga muito pequena. Era preciso um botijo maior, seno no dava mesmo. E ainda desperdiavam vida com bobagem. 
<p>
  Ele quis marcar um encontro para ontem. No Lucas, como antigamente. O outro foi mais sensato e contraprops hoje, prevendo que ontem seria um dia de ressaca e segundos pensamentos. E tinha razo. Ontem  noite, ele voltou a telefonar. Falou secamente. Pediu desculpas, disse que no poderia ir ao encontro e despediu-se com um formal Melhoras para a Vivinha. 
  Tinha se lembrado da bobagem que motivara a briga. 

               ::::::::::::::::::::::::

<62> 
Hbito Nacional

  *Por uma destas coincidncias fatais*, vrias personalidades brasileiras, entre civis e militares, esto no avio que comea a cair. No h possibilidade de se salvarem. O avio se espatifar -- e, levando-se em considerao o carter dos seus passageiros, espatifar  o termo apropriado -- no cho. Nos poucos instantes que lhes restam de vida, todos rezam, confessam seus pecados, em verses resumidas, e entregam sua alma  providncia divina. O avio se espatifa no cho. 
  So Pedro os recebe de cara amarrada. O porta-voz do grupo se adianta e, j esperando o pior, comea a explicar quem so e de onde vm. So Pedro interrompe com um gesto irritado. 
  -- Eu sei, eu sei.
  Aponta para uns formulrios em cima de sua mesa e diz:
  -- Recebemos suas confisses e seus pedidos de clemncia e entrada no cu. 
<64>
  O porta-voz engole em seco e pergunta: 
  -- E... ento? 
  So Pedro no responde. Olha em torno, examinando a cara dos suplicantes. Aponta para cada um e pede que se identifiquem pelo crime. 
  -- Torturador. 
  -- Minha financeira estourou. Enganei milhares. 
  -- Corrupto. Menti para o povo. 
  -- Sabe a bomba, aquela? Fui o responsvel. 
  -- Roubei. 
  -- Me locupletei. 
  -- Matei.
  Etctera. So Pedro sacode a cabea. Diz:
  -- Seus requerimentos passaram pela Comisso de Perdo e foram rejeitados por unanimidade. Passaram pelo Painel de Admisses, uma mera formalidade, e foram rejeitados por unanimidade. Mas como ns, mais que ningum, temos que ser justos, para dar o exemplo, examinamos os requerimentos tambm na Cmara Alta, da qual eu fao parte. Uma maioria esmagadora votou contra. Houve s um voto a favor. Infelizmente, era o voto mais importante. 
  -- Voc quer dizer... 
  -- . Ele. Neste caso, anulam-se todos os pareceres em contrrio e prevalece a vontade soberana d'Ele. Isto aqui ainda  o Reino dos Cus. 
  -- E ns podemos entrar?
  So Pedro suspira.
<65> 
  -- Podem. Se dependesse de mim, iam direto para o Inferno. Mas... 
  Todos entram pelo Porto do Paraso, dando risadas e se congratulando. Um querubim que assistia  cena vem pedir explicaes a So Pedro. 
  -- Mas como  que o Todo-Poderoso no castiga essa gente? E So Pedro, desanimado: 
  -- Sabe como , brasileiro... 

               oooooooooooo
<P>
*Falando Srio*

<69>
Fobias 

  *As pessoas que defendem o pastoral* e a volta ao primitivo nunca se lembram, nas suas rapsdias (**)  vida rstica, dos insetos. Sempre que ouo algum descrever, extasiado, as delcias de um acampamento -- ah, dormir no cho, fazer fogo com gravetos e ir ao banheiro atrs do arbusto -- me espanto um pouco mais com a variedade humana. Somos todos da mesma espcie, mas o que encanta uns horroriza outros. Sou dos horrorizados com a privao deliberada. Muitas geraes contriburam com seu sacrifcio e seu engenho para que eu no precisasse fazer mais nada atrs do arbusto. Me sentiria um ingrato fazendo. E a verdade  que, mesmo para quem no tem os meus preconceitos, as delcias do primitivo nunca so exatamente como as descrevem. Aquela legendria casa  beira de uma praia escondida onde a 
<70>
civilizao ainda no chegou, ou chegou mas foi corrida pelo vento, e onde tudo  bom e puro, no existe. E se existe, nunca  bem assim. 
  -- Um paraso! No h nem um armazm por perto. 
  Quer dizer, no h acesso  aspirina, a fsforos ou a qualquer tipo de leitura salvo, talvez, metade de uma revista *Cigarra* de 1948, deixada pelos ltimos ocupantes da casa quando foram carregados pelos mosquitos. 
  -- A gente dorme ouvindo o barulho do mar... 
  E de animais terrestres e anfbios tentando entrar na casa para morder o seu p. E, se morder, voc morre. O antibitico mais prximo fica a 100 quilmetros e est com a data vencida. 
  No. Fico na cidade. A mxima concesso que fao  vida natural, no vero, so as bermudas. E, assim mesmo, longas. Muito curtas e j  um comeo de volta  selva. 
  No sei como se chamaria o medo de no ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaos abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de mdicos) e at *treiskaidekafobia* (medo do nmero treze), mas o pnico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insnia, sem nada para ler no sei que nome tem.  uma das minhas neuroses. O vcio que lhe d origem  a 
 gutembergomania, (**) 
<71> 
uma dependncia patolgica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. J sa de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham Frio e Quente escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. J ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefnica, tentando me convencer de que, pelo menos no nmero de personagens, seria um razovel substituto para um romance russo. J revirei cobertores e lenis,  procura de uma etiqueta, qualquer coisa. 
  Alguns hotis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bblia no quarto, e ela tem sido a minha salvao, embora no no modo pretendido. Nada como um *best-seller* numa hora dessas. A Bblia tem tudo para acompanhar uma insnia: enredo fantstico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ao, paixo, violncia -- e uma mensagem positiva. Recomendo Gnesis pelo mpeto narrativo, O cntico dos cnticos pela poesia, e Isaas e Joo pela fora dramtica, mesmo que seja difcil dormir depois do Apocalipse. 
  Mas, e quando no tem nem a Bblia? Uma vez liguei para a 
<p>
telefonista de madrugada e pedi uma *Amiga*. 
  -- Desculpe, cavalheiro, mas o hotel no fornece companhia feminina... 
  -- Voc no entendeu! Eu quero uma revista *Amiga*. *Capricho*, *Vida Rotariana*, qualquer coisa. 
  -- Infelizmente, no tenho nenhuma revista. 
  -- No  possvel! O que voc faz durante a noite? 
  -- Tric.
  Uma esperana!
  -- Com manual? 
<72>
  -- No. 
  Danao. 
  -- Voc no tem nada para ler? Na bolsa, sei l. 
  -- Bem... Tem uma carta da mame. 
  -- Manda! 

               ::::::::::::::::::::::::

<73>
<p> 
Anedotas 

  *Um dos mistrios da vida *: de onde vm as anedotas? O enigma da criao da anedota se compara ao enigma da criao da matria. Em todas as teorias conhecidas sobre a evoluo do universo sempre se chega a um ponto em que a nica explicao possvel  a da gerao espontnea. Do nada surge alguma coisa. As anedotas tambm nasceriam assim, j prontas, aparentemente autogeradas. Voc no conhece ningum que tenha inventado uma anedota. Ou, pelo menos, uma boa anedota. Os que contam uma anedota sempre a ouviram de outro, que ouviu de outro, que ouviu de outro, que no se lembra onde a ouviu. Se anedota fosse crime, sua represso seria dificlima. Prenderiam os viciados e os traficantes, a arraia-mida, mas jamais chegariam ao capo, (**) ao distribuidor, ao verdadeiro culpado. 
  -- Prendemos o Joca (Sabem a ltima?) da Silva. Ele estava passando uma anedota e... 
<74>
  -- Imbecis! No era para prender. 
  -- Mas, delegado. Ele estava de posse de dezenas de anedotas de primeira qualidade. Algumas novssimas... 
  -- Era para segui-lo e descobrir seu fornecedor. Mais uma pista perdida... 
  Os humoristas profissionais no fazem anedotas. Inventam piadas, frases, cenas, histrias, mas as anedotas que correm o pas no so deles. So de autores desconhecidos mas nem por isto menos competentes. Uma anedota geralmente tem o rigor formal de um teorema. Exposio, desenvolvimento, desenlace. Claro que variam de acordo com quem conta. Grande parte do sucesso de uma anedota depende do estilo de quem conta. A anedota  uma continuao da tradio homrica, de narrativa oral, que transmitia histrias antes do livro. Anedota impressa deixa de ser anedota. Existem contadores emritos. E casos pungentes de grandes contadores que, com o tempo, vo perdendo a habilidade, at chegarem ao supremo vexame de, um dia, esquecerem o fim da anedota.
  -- A o anozinho pega o desentupidor de pia e... 
  -- Sim? 
  -- E... e... Como  mesmo? J me vem... 
  -- No! 
  Pior do que isto  o contrrio. O contador decadente que passa a s se lembrar do fim das anedotas. 
  -- Como  mesmo aquela? Termina com o homem dizendo pro ndio fica com o escalpo (**) mas me devolve a peruca. Puxa... 
  H quem diga que todas as anedotas so variaes sobre dez situaes bsicas, que existem h sculos. Deus, depois de dar a Moiss a tbua com os Dez Man-
<p>
damentos, o teria chamado de volta e dito: 
  -- E esta  a das anedotas... 
<75> 
  Seja como for, a anedota  a grande manifestao da inventividade popular, a inteligncia clandestina que mantm vivo o esprito crtico, mesmo quando tentam reprimi-lo. Quem quiser saber o que pensavam os brasileiros dos seus lderes desde o primeiro Pedro deve procurar nas anedotas, no na histria oficial. Contam que na Rssia, certa vez, Stalin decidiu formar um ministrio da anedota, para substituir as anedotas que o povo andava espalhando por sua conta. Vrios ministros tentaram mas no conseguiram produzir anedotas que agradassem ao povo, e foram mandados para a Sibria. At que um ministro acertou e fez uma srie de anedotas, todas contra Stalin, que tiveram grande aceitao popular. O ministro foi condecorado e escapou de ser mandado para a Sibria por ter fracassado. Foi mandado para a Sibria por fazer anedotas sobre o Stalin. E o ministrio acabou logo, por falta de pessoal capacitado. 
  Dizem que, eventualmente, um computador bem programado poder escrever teses e romances. Mas duvido que algum computador, algum dia, possa fazer uma anedota. As instrues seriam claras. Local: uma cela de priso no Brasil. Personagens: os responsveis por escndalos financeiros. Tarefa: criar uma histria curta, com final surpreendente, que faa rir. O computador provavelmente responderia: 
  -- Tarefa impossvel. Situao improvvel. 

               ::::::::::::::::::::::::

ABC

  *Quando a gente aprende a ler*, as letras, nos livros, so grandes. Nas cartilhas -- pelo menos nas cartilhas do meu tempo -- as letras eram enormes. L estava o A, como uma grande tenda. O B, com seu grande busto e sua barriga ainda maior. O C, sempre pronto a morder a letra seguinte com a sua grande boca. O D, com seu ar prspero de gro-senhor. Etc. At o Z, que sempre me parecia estar olhando para trs. Talvez porque no se convencesse de que era a ltima letra do alfabeto e quisesse certificar-se de que atrs no vinha mais nenhuma. 
  As letras eram grandes, claro, para que decorssemos a sua forma. Mas no precisavam ser to grandes. Que eu me lembre, minha viso na poca era perfeita. Nunca mais foi to boa. E, no entanto, os livros infantis eram impressos com letras gradas e entrelinhas generosas. E as palavras eram curtas. Para no cansar a vista. 
   medida que a gente ia crescendo, as letras iam diminuindo. E as palavras, aumentando. Quando no se tem mais uma viso de criana  que se comea, por exemplo, a ler jornal, com seus tipos midos e 
<77> 
linhas apertadas que requerem uma viso de criana. Na poca em que comeamos a prestar ateno em coisas como notas de p de pgina, bulas de remdio e subclusulas de contrato, j no temos mais metade da viso perfeita que tnhamos na infncia, e esbanjvamos nas bolas da Lulu e no corre-corre do Fasca. 
  Chegamos  idade de ler grossos volumes em corpo 6 quando s temos olhos para as letras gigantescas, coloridas e cercadas de muito branco, dos livros infantis. Quanto mais cansada a vista, mais exigem dela. Alguns recorrem  lente de aumento para seccionar as grandes palavras em manejveis monosslabos infantis. E para restituir s letras a sua individualidade soberana, como tinham na infncia. 
  O E, que sempre parecia querer distncia das outras. 
  O R! Todas as letras tinham p, mas o R era o nico que chutava. 
  O V, que aparecia em vrias formas: refletido na gua (o X), de muletas (o M), com o irmo siams (o W). 
  O Q, que era um O com a lngua de fora. 
  De tanto ler palavras, nunca mais reparamos nas letras. E de tanto ler frases, nunca mais notamos as palavras, com todo o seu mistrio. 
  Por exemplo: pode haver palavra mais estranha do que esdrxulo?  uma palavra, sei l. Esdrxula. Ainda bem que nunca aparecia nas leituras da infncia, seno teria nos desanimado. Eu me recusaria a aprender uma lngua, se soubesse que ela continha a palavra esdrxulo. Teria fechado a cartilha e ido jogar bola, para sempre. As cartilhas, com sua alegre simplicidade, serviam para dissimular os terrores que a lngua nos reservava. Como esdrxulo. Para no falar em autctone. Ou, meu Deus, em seborria! 
  Na verdade, acho que as crianas deviam aprender a ler nos livros do Hegel (**) e em longos tratados de metafsica. S elas tm a viso 
<78>
adequada  densidade do texto, o gosto pela abstrao e tempo disponvel para lidar com o infinito. E na velhice, com a sabedoria acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores  medida que nossos olhos se cansavam, estaramos ento prontos para enfrentar o conceito bsico de que vov v a uva, e viva o vov. 
  Vov v a uva! Toda a nossa inquietao, nossa perplexidade e nossa busca terminariam na resoluo deste enigma primordial. Vov. A uva. Eva. A viso. 
  Nosso ltimo livro seria a cartilha. E a nossa ltima aventura intelectual, a contemplao enter-
<p>
necida da letra A. Ah, o A, com suas grandes pernas abertas. 

               oooooooooooo
<P>
*Exerccios de Estilo*

<81>
Amor

<R+>
<f->
*Poema Mais Ou Menos De 
  Amor*:
Eu queria, senhora,
ser o seu armrio
e guardar seus tesouros
como um corsrio.
Que coisa louca:
ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa slida,
circunspecta e pesada
nessa sua vida to estabanada.
Um amigo de lei
(de que madeira eu no sei).
Um sentinela do seu leito
-- com todo o respeito. 
Ali, ter gavetinhas 
para suas argolinhas. 
<82>
Ter um vo 
para o seu camisolo 
e sentir o seu cheiro, 
senhora, 
o dia inteiro.
Meus nichos
como bichos
engoliriam suas meias-calas,
seus sutis sem alas.
E tirariam nacos
dos seus casacos.
Ah, ter no colo,
como gatos,
os seus sapatos.
E no meu cho,
como trufas,
suas pantufas...
Suas echarpes, seus *jeans*,
seus longos e afins.
Seus trastes
e contrastes.
Aquele vestido com asa
e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo.
Um pulver amigo.
Bonecas de pano.
Um brinco cigano.
Um chapu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.
Suteres de l
<83> 
e um estranho astrac. 
Ah, v-la se vendo 
no meu espelho, correndo. 
Puxando, sem dores,
os meus puxadores. 
Mexendo com o meu interior 
--  procura de um pregador.
Desarrumando o meu ser
por um *prt--porter*... (**)
Ser o seu segredo,
senhora,
e o seu medo.
E sufocar,
com agravantes,
todos os seus amantes.
<F+>
<R->

               ::::::::::::::::::::::::

<84>
Um, Dois, Trs 

  *Eu queria um dia fazer uma crnica* como uma valsa antiga. Que rodopiasse pela pgina como, digamos, um velho comendador de fraque e a sua jovem amiga. Cheia de rimas como quimera (**) e primavera. Com passos e compassos, ah quem me dera. Talco nos decotes, virgens suspirosas e uma sugesto de intriga. 
<p>
  Os pargrafos seriam verso e figuraes. No meio um lustre, na tuba um gordo e em cada peito mil palpitaes. Os namorados trocariam olhares. As tias e os envergonhados nos seus lugares. E de repente uma frase perderia o fio, soltando slabas por todos os sales. 
  A segunda parte me daria um n. 
  Os pares param, o maestro espera e ningum tem d. 
  Dou r, vou l, j no caibo em mi. 
  E ento decreto -- v f --  cada um por si! 
  Um, dois, trs. 
<85> 
  Um, dois, trs. 
  A minha orquestra seria toda de professores. Um de desenho, trs de latim, cinco de portugus e todos amadores. O baterista cheiraria coca. O contrabaixista no parece o Loca? E o gordo da tuba um duque da Bavria nos seus ltimos estertores. (**) 
  Um cadete rouba o amor da filha de um magnata. Pescoo de alabastro, (**1) boca de rubi e os olhos de uma gata. O namorado, despeitado, urde sua vingana.  quase meia-noite e segue a contradana. O pai da moa dorme nos seus sete queixos e sonha com uma negociata. 
  No avarandado branco, onde vo ver a Lua 
  A moa e o cadete, que a imagina nua, 
  Beijam-se perdidamente a trs por quatro. 
  E o segundo trado sou eu, que no encontro rima para quatro. 
  Um, dois, trs. 
  Um, dois, trs. 
  Um violinista, de improviso, olha o relgio e perde um bemol. Faltam poucas linhas para acabar meu espao e surgir o sol. L fora, o par apaixonado. De tanto amor nem olha para o lado. No v o despeitado que se aproxima, quieto e encurvado como um caracol. 
<p>
  Eu mesmo me concedi esta valsa e, portanto, tenho a deciso. Que arma usar o trado na sua vil ao? Uma adaga, fina e reluzente? Combina mais com o requintado ambiente. Mas se errar o passo e o alvo o vilo e, abrindo um filo, conspurcar (**2) o alvo cho? 
  Um tiro na nuca  mais ligeiro 
  Mais prtico, moderno e certeiro. 
  Mas, meu Deus, o que  que eu estou fazendo? 
  Comecei com uma singela valsa e j tem gente morrendo! 
<86>
  Um, dois, trs. 
  Um, dois, trs. 
  Eu s queria fazer uma crnica como uma valsa antiga. Que rodopiasse pela pgina como um comendador cansado e sua compreensiva amiga. Cheia de rimas sem compromisso aparente. Nem com couro, nem com prata, nem com a crise do Ocidente. Decotes bocejando. Virgens sonolentas e nem uma sugesto de briga. 
<p>
  Um, dois, trs. 
  Etc. 

               ::::::::::::::::::::::::

<87> 
O Ator

  *O homem chega em casa*, abre a porta e  recebido pela mulher e os dois filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que h para jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar um banho, trocar de roupa e preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televiso antes de dormir. Quando est abrindo a porta do seu quarto, ouve uma voz que grita: 
  -- Corta! 
  O homem olha em volta, atnito. Descobre que sua casa no  uma casa,  um cenrio. Vem algum e tira o jornal e a pasta das suas mos. Uma mulher vem ver se a sua maquiagem est bem e pe um pouco de p no seu nariz. Aproxima-se um homem com um *script* na mo dizendo que ele errou uma das falas na hora de beijar as crianas. 
  -- O que  isso? -- pergunta o homem. -- Quem so vocs? O que esto fazendo dentro da minha casa? Que luzes so essas? 
  -- O qu, enlouqueceu? -- pergunta o diretor. -- Vamos ter que repetir a cena. Eu sei que voc est cansado, mas... 
<88>
  -- Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama. Saiam da minha casa. No sei quem so vocs, mas saiam todos! Saiam! 
  O diretor fica parado de boca aberta. Toda a equipe fica em silncio, olhando para o ator. Finalmente o diretor levanta a mo e diz: 
  -- Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e... 
  -- Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha famlia! O que vocs 
<p>
fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos! 
  O homem sai correndo entre os fios e os refletores,  procura da famlia. O diretor e um assistente tentam segur-lo. E ento ouve-se uma voz que grita: 
  -- Corta! 
  Aproxima-se outro homem com um *script* na mo. O homem descobre que o cenrio, na verdade,  um cenrio. O homem com um *script* na mo diz: 
  -- Est bom, mas acho que voc precisa ser mais convincente. 
  -- Que-quem  voc? 
  -- Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Voc tem que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e descobre que sua casa no  uma casa,  um cenrio. Descobre que est no meio de um filme. No entende nada. 
  -- Eu no entendo... 
  -- Fica desconcertado. No sabe se enlouqueceu ou no. 
  -- Eu devo estar louco. Isto no pode estar acontecendo. Onde est minha mulher? Os meus filhos? A minha casa? 
  -- Assim est melhor. Mas espere at comearmos a rodar. Volte para a sua marca. Ateno, luzes... 
<89> 
  -- Mas que marca? Eu no sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ningum me dirige. Eu estou na minha prpria casa, dizendo as minhas prprias falas... 
  -- Boa, boa. Voc est fugindo um pouco do *script*, mas est bom. 
  -- Que *script*? No tem 
 *script* nenhum. Eu digo o que quiser. Isto no  um filme. E mais, se  um filme,  uma porcaria de filme. Isto  simbolismo ultrapassado. Essa de que o mundo  um palco, que tudo foi predeterminado, que no somos mais do que atores... Porcaria! 
  -- Boa, boa. Est convincente. Mas espere comear a filmar. 
 Ateno...
<p>
  O homem agarra o diretor pela frente da camisa. 
  -- Voc no vai filmar nada! Est ouvindo? Nada! Saia da minha casa. 
  O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo cho. Nisto ouve-se uma voz que grita: 
  -- Corta! 

               ::::::::::::::::::::::::

<90>
Rpido 

  *Acho que era o Marcel 
 Marceau* (**) que tinha uma pantomima (**1) em que ele representava a vida de um homem, do bero ao tmulo, em menos de um minuto. Shakespeare, (**2) claro, tem seu famoso solilquio sobre as idades do homem que tambm  uma maravilha de sintetizao potica. Nossas vidas, afinal, comparadas com a idade do Universo, se desenrolam em poucos 
<p>
segundos. Cabem numa pgina de dilogo.
  -- Quer danar? 
<91>
  -- Obrigada. 
  -- Voc vem aqui sempre? 
  -- Venho. 
  -- Vamos namorar firme? 
  -- Bom... Voc tem que falar com o papai... 
  -- J falei com seu pai. Agora  s marcar a data. 
  -- 26 de julho? 
  -- Certo. 
  -- No esquea as alianas... 
  -- Voc me ama? 
  -- Amo. 
  -- Mesmo? 
  -- Sim. 
  -- Sim. 
  -- Parece mentira. Estamos casados. Tudo est acontecendo to rpido... 
  -- Sabe o que foi que disse o noivo nervoso na noite de npcias? 
  -- O qu? 
  -- Enfim, S.O.S. 
  -- Voc estava nervoso? 
  -- No. Foi bom? 
  -- Mmmm. Sabe de uma coisa? 
  -- O qu? 
  -- Eu estou grvida. 
  --  um menino! 
  -- A sua cara... 
  -- Aonde  que voc vai? 
<92>
  -- Ele est chorando. 
  -- Deixa... Vem c. 
  -- Meu bem... 
  -- Hmm? 
  -- Estou grvida de novo. 
  --  menina! 
  -- O que  que voc tem? 
  -- Por qu? 
  -- Parece distante, frio... 
  -- Problemas no trabalho. 
  -- Voc tem outra! 
  -- Que bobagem. 
  --  mesmo... Voc me perdoa? 
  -- Vem c. 
  -- Aqui no. Olha as crianas... 
  -- O Jnior saiu com o carro. Ia pegar uma garota. 
  -- Voc j falou com ele sobre... 
<p>
  -- J. Ele sabe exatamente o que fazer. 
  -- O qu? Voc deu instrues? 
  -- Na verdade ele j sabia melhor do que eu. Essa gerao j nasce sabendo. S precisei mostrar como se usa o macaco. 
  -- O qu?! 
  -- Ah, voc quer dizer... Pensei que fosse o carro. E a Beti? 
  -- Parece que  srio. 
  -- Ela e o analista de sistemas? 
  -- . Alis... 
<93>
  -- Esto vivendo juntos. Eu sabia! 
  -- Ela est indo para o hospital. 
  -- J?! 
  -- So gmeos! 
  -- Sabe que voc at que  uma av bacana? 
  -- Quem diria... 
  -- Vem c. 
  -- Olha as crianas. 
  -- Que crianas? 
  -- Os gmeos. A Beti deixou eles dormindo aqui. 
  -- Ai. 
  -- Que foi? 
  -- Uma pontada no peito. 
  -- Voc tem que se cuidar. Est na idade perigosa. 
  -- J?! 
  -- Sabe que a Beti est grvida de novo? 
  -- Devem ser gmeos outra vez. O cara trabalha com o sistema binrio. 
  -- Esse conjunto do Jnior precisa ensaiar aqui em casa? Que inferno. 
  -- E o nome do conjunto? Terror e xtase. 
  -- Vo acordar os gmeos. 
  -- Ai. 
  -- Outra pontada? 
  -- Deixa pra l. Olha, essa msica at que eu gosto. No  um *rock*-balada? 
<94> 
  -- No. Eles esto afinando os instrumentos. 
  -- Quer danar? 
<p>
  -- No! Voc sabe o que aconteceu da ltima vez. 

               oooooooooooo
<p>
Notas de Rodap

<R+>
<f->
(**) Trombone axilar (pg. 33) -- som semelhante ao do trombone, produzido quando se espreme a mo debaixo do brao.
(**1) Elptica (pg. 34) -- curva. 
(**) Estoicamente (pg. 36) -- resignadamente, conformadamente.
(**) Catherine Deneuve (pg. 37) -- clebre atriz francesa nascida em 1943 e considerada a maior estrela do cinema francs, tendo atuado em quase 100 filmes at hoje.
(**) Garrulice (pg. 46) -- tagarelice.
(**) Monetrias (pg. 58) -- relativas ao dinheiro em circulao.
(**) Rapsdias (pg. 72) -- neste caso, um discurso em defesa.
<p>
(**) Gutembergomania (pg. 74) -- refere-se ao alemo Johann Gutemberg, que inventou a imprensa, criada por volta de 1450.
(**) Capo (pg. 77) -- chefe.
(**) Escalpo (pg. 79) -- couro.
(**) Hegel (pg. 85) -- Friedrich Hegel, filsofo clssico famoso, nascido na 
  Alemanha em 1770, e falecido em 1831.
(**) *Prt--porter* (pg. 89) -- roupa de boa qualidade, geralmente assinada por um estilista.
(**) Quimera -- (pg. 89) fantasia, sonho.
(**) Estertor -- (pg. 90) respirao ruidosa do moribundo, agonia.
(**1) Pescoo de alabastro (pg. 91) -- pescoo muito branco, alvo.
<P>
(**2) Conspurcar (pg. 92) -- macular, manchar.
(**) Marcel Marceau (pg. 97) -- mmico francs, destaca-se por sua expressividade corporal; fundou a Escola Internacional de Mmica, Paris. 
(**1) Pantomima (pg. 97) -- representao de uma histria atravs de gestos, expresses faciais e movimentos. 
(**2) Shakespeare (pg. 97) -- dramaturgo ingls nascido em 1564, autor de obras famosas como Romeu e Julieta, Hamlet, A Megera Domada, Sonho de uma Noite de Vero, entre outras. 
<f+>
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               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra
